Guia para advogados criminalistas

A prova digital do seu caso se sustenta?

A prova digital contra o seu cliente pode ser anulada, desentranhada ou fragilizada. Você já verificou?

Em 2026, quase toda denúncia se apoia em prova digital. E muita dessa prova não resiste a um exame.

Filipe Codeço, advogado processualista em provas digitais

Primeiro: o seu caso tem prova digital

O celular apreendido na abordagem. A conversa tirada do aparelho. O áudio interceptado. O vídeo da câmera. A foto usada no reconhecimento. O extrato, o PIX, o relatório financeiro. A antena que diz onde o seu cliente estava naquela hora.

Se alguma dessas coisas está no processo, o caso tem prova digital. Hoje, quase todos têm.

Ela não nasce pronta

A prova digital chega aos autos com aparência de verdade técnica: vem com número, com data, com relatório. É sobre ela que a denúncia é construída.

Mas ela não nasce pronta. Ela é produzida. Alguém apreendeu, alguém copiou, alguém escolheu o que juntar, alguém interpretou o que juntou. Cada uma dessas etapas pode ter sido bem feita ou mal feita.

Isso dá para examinar. E o exame responde uma pergunta só: essa prova se sustenta, ou é frágil?

O exame faz quatro perguntas

1

De onde ela veio?

Toda prova digital percorre um caminho, do aparelho ou da conta até os autos. Esse caminho tem de estar contado no processo, passo a passo: quem pegou, quando, como guardou, quem mexeu.

Exemplo: o celular é apreendido numa data e examinado meses depois, e o processo não diz onde ele esteve nesse meio-tempo.

Sustenta-se quando o caminho está inteiro no papel.
É frágil quando há um trecho que ninguém explica.
2

Chegou inteira?

O que está nos autos é tudo o que havia, ou um pedaço escolhido? Muitas vezes o processo recebe só o resumo: os trechos da conversa que interessaram a quem investigou, a transcrição de parte do áudio. E é preciso poder demonstrar que o que foi copiado é igual ao original, sem nada a mais nem a menos.

Exemplo: dez mensagens citadas, de uma conversa de meses. O que vinha antes? O que veio depois?

Sustenta-se quando dá para conferir o conjunto e mostrar que nada mudou.
É frágil quando só existe o recorte.
3

É mesmo do seu cliente?

Entre uma prova e uma pessoa existe uma corrente: o aparelho, o chip, o número, a conta, quem usava. A acusação precisa demonstrar cada elo, e não supor.

Exemplo: as mensagens atribuídas ao seu cliente estavam no celular de outra pessoa, e o que o liga a elas é um apelido.

Sustenta-se quando cada elo tem documento.
É frágil quando algum elo é suposição.
4

Ela diz mesmo o que dizem que ela diz?

A prova digital quase nunca fala sozinha. Alguém a lê e conta o que ela significa: o horário, o lugar, a gíria, quem é quem na conversa. Essa leitura também pode ser examinada.

Exemplo: a antena de celular indica uma região, não um endereço. Estar na área não é estar no local.

Sustenta-se quando a leitura da acusação é a única possível.
É frágil quando o mesmo dado admite outra.

O que sai desse exame

Uma resposta objetiva: a prova se sustenta, ou é frágil. E, se é frágil, em que ponto.

Às vezes a resposta é “se sustenta”. Saber disso cedo também vale: a defesa deixa de gastar energia onde não há o que ganhar e concentra a estratégia em outro lugar.

Quem faz o exame é o assistente técnico perito. O que fazer com a resposta é decisão sua, advogado: se, quando e como levar isso ao processo é estratégia de defesa, e a estratégia é de quem conduz o caso.

Quando vale examinar

Quando o caso se apoia em prova digital e ninguém da defesa olhou para ela ainda. Quanto mais cedo, mais opções a defesa tem.

Quatro perguntas para fazer ao seu caso hoje

Se você não sabe responder a alguma delas, isso ainda não é nulidade. É sinal de que vale examinar.

O curso

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